sábado, 13 de junho de 2009

O “estádio” do Artur



Aninhado no sopé do monte, o rectângulo não deve ultrapassar os cinquenta metros quadrados. Em cada canto, uma estaca delimita o espaço. E há duas estruturas de madeira erguidas ao alto, a “fazerem” de balizas, porque é de um “estádio” que se trata, na imaginação do pequeno Artur, quatro anos de gente…
Nota-se que o “ervado” merece cuidados técnicos, mas não há marcações, e o “penálti”, se o houver, é para cobrar mais ou menos a meia dúzia de passos da imaginária linha de baliza. Certamente, o Artur, o primo João, bastante mais crescido (vai nas treze primaveras), e o Paulo, pai do Artur, não se importam mesmo nada com as “faltas”; árbitro também não deve haver, por isso, vamos ao jogo!
A bola está à espera – já lá estava, sozinha e “triste”, quando a descobrimos no “estádio vazio”, meia escondida pela “relva” – faltam os atletas e o público, possivelmente reduzido à mãe do Artur, se os afazeres lá por casa estiverem de folga.
Convém que as duas equipas tenham número igual de jogadores; à hora do jogo, devem surgir mais uns quantos amigos e então sim: começa a partida!...
Talvez nada aconteça como imagino, e tudo não passe de uma brincadeira familiar, sempre se exercitam os músculos e o Artur dá asas ao sonho de chutar a bola num campo a sério, com balizas e tudo!...
Hoje, de manhã, li um excelente trabalho sobre o negócio das escolas de futebol, onde se realça o facto dos miúdos pagarem (os pais por eles…) determinada verba para aprenderem os truques do jogo; à tarde dei de caras com este “campinho”, quase à beira da estrada de quem vai de Vila Cova de Alva a caminho de Avô, um pouco antes da saída para Anceriz. À falta de estruturas desportivas por estas bandas, onde as crianças se entretenham nos tempos livres, a arte e o engenho de quem aproveitou determinado espaço e o adaptou a “campo de jogo” não podia ficar sem a devida nota…
O escrito sobre as escolas de futebol, a que tive acesso, deixa no ar uma questão pertinente: quem não tem disponibilidade económica, não pode ter um filho a aprender o abecedário da modalidade?
Uma bola feita a partir de uma meia, cheia de folhas de jornal, é memória dos mais antigos; o jogo acontecia onde muito bem calhava, as pastas da escola faziam de baliza, e gritava-se goooooooooolo com o mesmo entusiasmo com que se ouve nos grandes estádios! Nasceram grandes jogadores nessas partidinhas de fim de tarde ou durante o tempo de recreio na escola…
Desconheço se o menino Artur, que “treina” num campinho à porta de casa, procura imitar as fintas e remates do seu ídolo; se há admiração, por exemplo, pelo Cristiano Ronaldo, é bom que saiba, daqui a uns tempos, quais foram os princípios do seu “herói” na prática do jogo da bola.
Já agora, ainda lhe digo que o “grande” Eusébio chutava descalço durante as intermináveis partidas que tinham lugar na terra batida e poeirenta da Mafalala, em Moçambique, e nem por isso deixou de chegar onde chegou…
Que o jogo comece lá para as bandas de Anceriz, sem árbitro nem marcações no “relvado” – desde que a bola “pule e avance”, os sonhos são todos dele, do Artur, o dono “estádio”!
“Bora” lá, Artur, chuta-me essa bola, que o guarda-redes “estás de costas”!
Goooooooooolo!!!

Albertina e Dionídio


Para sempre – 50 cartas de amor de todos os tempos”, é uma pequena enciclopédia com mensagens, frases, reflexões e imenso romantismo. O filósofo Jean Jacques Rousseau dizia que elas, as cartas, “começam sem saber o que se vai dizer, e terminam sem saber o que se disse". Álvaro de Campos, foi mais longe e deixou para a posteridade outra frase célebre: “todas as cartas de amor são ridículas…”!
O livro reúne textos de várias personalidades, de Beethoven a Chopin, de Franz Kafka a Fernando Pessoa. Os homens não diferem muito nas questões do coração quando o descobrem apaixonado e, por vezes, retratam o sentimento de forma tão sublime quanto pueril…
Para lá das cartas trocadas pelos amantes, há estórias (de amor) cujos relatos nem sempre têm um final feliz: “Tristão e Isolda”, de autor desconhecido do século XII (?), ou “Romeu e Julieta”, de William Shakespeare, são disso exemplo. Felizmente, tal não aconteceu, em 1945, ao casal Albertina e Dionídio, residentes em Meda de Mouros, aqui bem perto.
A força da paixão dos jovens amantes levou de vencida as contrariedades ao muito bem querer com que enfeitaram os sonhos, como se conta ao correr da pena, surripiado o relato do livro “Meda de Mouros e as suas gentes”, de Salvador da Costa e Luís Castanheira.
Albertina de Jesus e Dionídio Pereira namoriscavam-se e disso não guardavam segredo. O entusiasmo do primeiro amor, naquele tempo, era capaz de quase tudo, excepto contrariar interesses familiares.
Entretanto, Eduardo, viúvo, industrial de panificação, bastante mais velho, entendeu alargar os “apetites apaixonados” e declarou-os à Albertina e aos pais, que se mostraram “sensíveis” aos seus interesses…
- Nunca! – terá dito a conversada do Dionídio.
Porém, a insistência foi tanta que a pobre rapariga, por respeito (ou medo?) aos progenitores, acedeu. Ela e o Eduardo, o viúvo, à socapa, foram comprar o enxoval, mas não se rodearam de grandes cuidados e a notícia não tardou em chegar ao conhecimento do Dionídio que, “…perdido de amor, adoeceu, ficou acamado, recusou alimentar-se e dizia à mãe que morreria se não lhe fossem buscar a Albertina”! A senhora, perante a dor do seu amado filho, implorou aos pais da Albertina que tivessem em conta o amor de ambos, mas de nada valeram as lágrimas, que certamente terá enxugado com uma das pontas do xaile negro com que se cobria. Conta-se, na estória, que a senhora, “com o espírito amargurado, caminhou em clamor pela rua acima…”.
Perante tamanha “safadeza”, dois amigos do apaixonado Dionídio convenceram-no a raptar a amada, e logo engendraram um plano, que passava pela ida da Albertina à fonte, ao anoitecer, onde havia de explicar-se, olhos nos olhos, ao seu Dionídio. Nada consta sobre os pormenores do “rapto”, mas sabe-se que ela deixou a rodilha e o cântaro na fonte e refugiou-se na casa de um dos mentores do acto, o Augusto Lopes.
Luís Pereira, pai da Albertina, não tardou em conhecer a verdadeira “tragédia” e foi em busca da filha, na companhia de dois irmãos desta. Chegados ao refúgio, vem a Albertina e, com lágrimas a rolarem pela face, corajosamente enfrenta os familiares, afiançando-lhes que só se casaria com o Dionídio. Conformados, pai e irmãos, regressaram a casa….
Algum tempo depois, realizou-se o casamento da Albertina e do Dionídio… e foram felizes para sempre!
Do viúvo Eduardo nada mais se sabe. Possivelmente, carpiu mágoas junto à ponte “romana” do Cadoiceiro, em Meda de Mouros…
Agora, aos noventa anos, a memória da dona Albertina já não é o que era. Se fosse, a estória viria inteira!